Efeito Rápido

 
 
  De cinco a dez segundos. Esse é o tempo para o crack começar a fazer efeito, porém a duração da sensação também dura pouco, o que faz o usuário logo procurar mais uma "pedra".

    "É uma sensação muito boa, indescritível, mas depois teu corpo já pede mais e aí tudo se perde: casa, família, amigos”, conta Leandro, 34 anos, ex-usuário da droga fabricada a partir da "cocaína suja".
 
 

    Por essa característica é considerada uma droga de rápida dependência, que produz efeitos de fácil identificação. "Por ser produzida com os resíduos da cocaína e outras substâncias tóxicas, o corpo logo reage e deixa o usuário com aparência de cadáver.

 
 

    Se uma pessoa começa a fazer uso de crack, um mês depois ela está quase irreconhecível", aponta o delegado da  Delegacia de Furto Roubo Entorpecentes e Capturas (Defrec), Sandro Meinerz.

 
 

    Essa é a situação pela qual muitos usuários passam antes de conseguir ajuda. O filho de Márcia (nome fictício) há pouco tempo saiu da prisão, já usuário de crack. "Ele trocava a comida que eu levava pela droga.

 
 

    Quando voltou para casa passou a roubar objetos daqui para trocar por crack. Já pegou coisas até dos vizinhos para vender, por isso agora ninguém quer dar abrigo para ele", conta a mãe, que relatou a situação aos delegados do 2º Distrito Policial.

 
 

    O rapaz, hoje com 20 anos, desde os 14 escapava das aulas para fumar maconha. Essa é a média de idade com que os jovens, que buscam ajuda no Centro de Atenção Psicossocial (Caps-AD), começam a trilhar o caminho das drogas. "O que podemos notar é que se tem iniciado cada vez mais cedo o uso de drogas.

 
 

    Dos 93 usuários no Caps-AD, os de 14 e 20 anos começaram com 14; já entre os de 41 a 50 anos, a média de idade com que se iniciou o uso foi aos 22", afirma Douglas de Oliveira, responsável pela Política de Saúde Mental do município.

 
 

    Exemplo disso é D. (para preservar o ex-usuário), um jovem de 26 anos, há dois sem consumir drogas. Desde os 10  anos ele usava álcool e maconha. Aos 13 passou para a cocaína e aos 24 descobriu o crack.

 
 

    Em poucos meses, perdeu a casa mobiliada e a mulher, a família se afastou e ele começou a roubar para comprar a droga. “Eu tinha virado bandido, a polícia estava atrás de mim no auge da minha fissura pelo crack. Eu tinha 56 quilos na época”, conta D, que, com a ajuda da mulher, procurou a Pacto para iniciar um tratamento e hoje está com 80 quilos.

 
 

A busca por ajuda

 
 

    De acordo com José Cristiano Soster, enfermeiro da Unidade do programa de Saúde da Família da Vila Santos, é o processo de criminalização dos usuários o que os afasta do tratamento. "Eles se sentem bandidos, criminosos por usarem drogas.

 
 

    Por isso, não procuram os órgãos públicos para pedirem ajuda", aponta. Para o coordenador do Caps-AD, Volnei Da Soler, o crack é uma droga que vicia e acaba com a pessoa rapidamente, por isso há uma baixa adesão ao tratamento por parte dos usuários.

 
 

    A vontade de parar com a droga é o primeiro passo para a recuperação, mas a família pode e deve ajudar. As portas de entrada para o tratamento gratuito são o Caps-AD e o Pronto-Atendimento (PA) Psiquiátrico do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM).

 
 

    O dependente químico e sua família podem procurar o Caps-AD para fazer uma triagem e avaliação do tipo de tratamento a ser feito.

 
 

    "No Centro de Apoio, buscamos tratar o usuário sem retirá-lo de sua realidade, de sua família, pois esse contato é importante, já que foi nesse meio que ele desenvolveu essa dependência. Assim ele vai ao Caps com freqüência e volta para casa para dormir", explica Douglas de Oliveira.

 
 

    Se o usuário estiver em crise e não tiver condições de esperar por uma triagem é recomendável ir para o PA, onde será feita uma desintoxicação. Para Douglas, o último recurso é o isolamento. "O afastamento prolongado pode fazer com que ele perca a ligação com a família e fique difícil depois essa reaproximação", aponta.

 
 

Apreensões

 
 

    De acordo com o delegado Sandro Meinerz, da Defrec, as apreensões de crack começaram a aparecer em 2005. Em 2006, o número foi pequeno. Já em 2007, o volume chegou a 168,78 gramas, com 32 pessoas presas. Desde o início deste ano até a segunda semana de março de 2008, já foram apreendidos 83 gramas e seis  foram presos.

 
 

     “Já é quase metade das apreensões de 2007 e nem chegamos ao meio do ano”, exclama Meinerz. Apesar do expressivo número, o delegado acredita que as apreensões tendem a aumentar e ainda não correspondem ao universo de consumidores dessa droga na cidade, que ele acredita ser maior.

 
 

De onde vem a droga?

 
 

    O crack vem da região metropolitana de Porto Alegre e de Santa Catarina, e por enquanto não se tem indícios de que seja sintetizada na cidade. Já a maconha vem da Argentina.

 
 

Internações

 
 

    No Hospital de Nova Palma, que recebe adolescentes, em janeiro e dezembro de 2007 nenhum caso foi registrado. Já nos dois primeiros meses de 2008, foram oito. Foram 10 internações espontâneas (os pais que levaram o usuário); um encaminhamento do Conselho Tutelar; e cinco para hospitais da região que tratam de adolescentes. No Caps-AD, das 93 pessoas em tratamento, 16 são usuárias de crack.

 
 

    No Caps-Infantil há um caso de menor de 12 anos em tratamento. Originalmente esse centro é destinado para transtornos mentais graves e não para tratar dependência química. Santa Maria ainda não tem leitos psiquiátricos para crianças e, por isso, envia os pacientes para Pelotas e Rio Grande.

 
 

    “A internação de crianças ainda é algo muito novo e, por isso, o Caps ainda não está preparado. Mas é uma luta que já começamos, estamos buscando abrir leitos para crianças nos hospitais psiquiátricos e adaptando o Caps-I para este fim”, ressalta Douglas de Oliveira.

 
 

 

 
 
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